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Fragmentos para um romance

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Suada como a brisa úmida de uma manhã quente e modorrenta ela paria a si pelos ventos de outono que passavam por ela.

Estava nascendo. Raiava o dia naquele corpo cansado da noite mal dormida. As ideias lhe tomavam em vertigens contínuas de pensamento. Obrigou-se a levantar e fazer troça de seus inoportunos rompantes de criação.

Escrevia. Era o que amava fazer sozinha. Às vezes as frases lhe tomavam de súbito, como se nem fosse ela. Parecia sempre a frase de um romance. Inoportuna frase que irrompia em seus lábios ardendo para ser escrita. Não importava a hora.
Perguntava-se se seria o mesmo romance ou um novo a cada frase que surgia. Perguntava-se para nunca responder a si mesma. E sempre duvidava de sua capacidade de escrever romances. Acostumada aos pequenos textos, os romances lhe soavam aos ouvidos como grandes montanhas rochosas cobertas de neve. Uma escalada impossível.

E a frase morria um pouco quando era cristalizada pela tela do computador ou pelo grafite marcado na folha. E parecia então que o romance acabava já na primeira frase. Multiplicadas as frases, dariam um romance?

Multiplicadas as cenas, daria uma vida.

Crescer

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Crescer não é só tentar inflar uma vida dentro de uma casa morta.

É não ocupar o lugar morto deixado pela outra face do escárnio.

Status

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Ingenuidade é o motor do relacionamento. É aquilo que a leva a fazer coisas idiotas, inclusive acreditar que existam relacionamentos. E que eles “dão certo”. Assim como os comerciais de margarina. Não são de verdade. Não nesse modelo.

Outra e outra vez e você sempre acha que aquele será diferente. Até que você percebe que não mudou. E não é o outro. É você. Você repetiu tudo de novo e outra vez. Você se expôs. Você odiou tanto aquela pessoa que pensou amar. Você foi cartesiano. Outra vez. E o pior, você alterou seu status no facebook. A maior de todas as bobagens já inventadas pela humanidade. Sim, o facebook, e, principalmente, o status de relacionamento.

Ao aceitar a solicitação de outro para “em um relacionamento sério com…” seu sorriso craquelou. A máscara de noivinha esfarelou-se e você percebeu, mas mesmo assim não pode evitar.

A máscara de noivinha é aquela que vem pronta, que você quase sempre usa ao se apaixonar. Ela é insistente. Mora em você. É a futura esposa, mãe zelosa e devotada ao marido e ao lar. Ela é quase inevitável. Apesar de você estar ciente de que ela não serve para você.

E então vem o pedido de mudança de status, que você até desejou, mas soube ao aceitar que era o marco da exposição, talvez o início do fim. Então você mudou o status e seus amigos “curtiram” e metade da humanidade morreu de inveja, e os ex (seus e dele) se esforçaram para mostrar como estão felizes por você e morrendo de inveja por dentro. Ou não.

Mas não importa porque, de toda forma, esse coraçãozinho que aparece ali e que liga vocês dois, se esfacelará em breve, pois você mesma tomará todas as atitudes viáveis e inconscientes para que isso aconteça. Porque no fundo você ainda não conseguiu abandonar a ideia (que subjetivou você por anos a fio) de que há um príncipe e felicidade para sempre. E é para matar essa ideia que você trata de ferrar sua relação. Pelo menos enquanto você não consegue construir outra máscara, porque sem a noivinha você também não sabe bem o que fazer.

Apesar de você ter estudado 10 anos na mesma universidade, e ter sido formada por professores que lhe ensinaram muitas coisas, entre elas, que a vida adulta é um caos tanto quanto a vida adolescente, que a felicidade não existe, e que vão insistir, a cada minuto em frente à telinha brilhante, que comprando qualquer coisa ou tomando o remédio certo, ela aparece. Você sabe que ela não existe, nem a felicidade, nem os príncipes, e que as princesas são mais ogras e abóboras e peludas do que sempre tentam parecer.

O seu mundo caiu, mas você se levantou. Você faz força para continuar de pé. Você sente dor. Uma dor que estraçalha, mas você descobre que há uma razão para viver, ou pelo menos, você acredita que haja. E é segurando isso, esse nada, que você segue.

Então você abre o facebook e “se liberta”. Muda seu status para “solteiro (a)” e promete a si mesma que não irá mudar isso NUNCA MAIS. Porque você tem quase 30 e já entendeu que o matrimônio e a maternidade não são destinos nos quais você deseja se meter, porque eles duram uma vida.

E uma vida, é muito tempo.

Partida

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Ela desejava partir. Sua rota agora era outra. Totalmente nova. A direção era inventada. E ela seguiria uma parte sozinha. “Nunca é o último”, voltou a pensar. Era uma boa constatação para essas horas.

 

Vagava solitária por seus pensamentos. Aconchegava-se na nuvem de sonhos. Forrara as paredes de si com um tecido aveludado na tentativa de sempre ter um canto para recostar-se quando a peleia era muita.

 

Estava exausta, como sempre. Necessitava urgentemente descansar. Sua viagem seguiria na direção do descanso, da tranquilidade e do esquecimento. A vida precisava respirar mais lentamente.

O problema era que às vezes ela tinha espinhos

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A linha dura encontra-se com a parede cimentada, o encontro é um choque mortal, de frente. Esparramam-se as faces inteiras em lados opostos. Não se misturam.

Noutras vezes a linha era suave, macia, afagava-a no colo, fazendo contorno para o que não devia ser. Era aí que nasciam os espinhos. Laura virava um ouriço ao perceber aconchego. Lia depressa que era cerceamento. Tinha uma vontade liberta em seus espinhos.

Espinhava duro para fugir.

Talvez de si mesma.

Conversações

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Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga (Gilles Deleuze, filósofo francês).

Hoje a vida não está ajudando. A vida está fria. A vida está calada. A vida não quer conversar. Dificuldades impedem a vida de andar. Então ela se pergunta: “deixo-me afogar? Habito o limbo desta sensação alguns dias?”. E a vida teme não voltar. Teme a fatalidade de nunca mais se recuperar. Ainda que a cada convocação para o sorriso ela até aceda. Fiapo de luz que segura a vida na vida. 

Quando a única palavra é feia

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Tem dias que você acorda cheio de palavras feias. Cheio de ódios, de falta de sentido. Tem dias que você acorda endurecido pela vida. Sai de manhã sabendo que a única solução para este dia teria sido não sair da cama. Mas você não pode ficar na cama aquele dia. Porque aquele dia é velho de sonhos. Aquele dia é cinza de sentimentos. E ainda, naquele dia, você precisa trabalhar, como todos os outros.

Não podendo outra coisa senão ir, você vai. E a cada lágrima que escorre ao som da música você lembra da cama e das juras que morreram nela. Cada lágrima faz você lembrar da dor da noite anterior. Da noite anterior e do dia seguinte. Em que o céu já era cinza, mas só em cima de você.

Aí você se dá conta que já é o terceiro dia e que tudo isso que você viveu não faz o menor sentido. Você sai pela rua remoendo o dia cinza,  a palavra que não conseguiu dizer, aquilo que não conseguiu sentir. Você sai atrasado, porque toda razão lhe puxava para dentro daquela casa e para a volta daquela cama.

Você anda mais um pouco e tudo segue sem sentido, você pega o ônibus sabendo que chegará atrasado, você briga com os transeuntes que insistem em caminhar muito devagar ou mesmo parar a sua frente. Você chega no trabalho atrasado e não perdera nada, tudo recém havia começado e você se pergunta porque mesmo que as pessoas marcam horário se nada começa nele. Você sorri e faz de conta que está tudo bem, você acolhe tudo o que lhe dizem, consegue defender seu ponto de vista. Por fim tudo acaba e você finalmente vai embora. Aí você resolve parar na biblioteca e retirar alguns livros. É claro que você não encontra a metade deles, porque você não deveria nem ter saído da cama, quanto mais decidido ir  à biblioteca…

Então você encontra um colega que pergunta como você está, você lança mão de seu sorriso postiço e recusa gentilmente o convite para o chopp mais tarde, porque enfim, a única boa imagem do dia parece ainda ser a cama, e as juras que morreram nela.

Você morreu na 4a à noite, mas a semana insistiu em existir até a 6a. Então você chega na 6a achando que tudo vai acabar, que as dores desaparecerão como por conta de um milagre, ou de um bom relaxante muscular, afinal é quase meia noite e você não quer mais pensar.

Você já disse tudo o que queria dizer, embora considere que possa ter dito coisas inadequadas para algumas pessoas e deixado de dizer as devidas a outras. Mas não era mesmo o seu dia de sair da cama.

Você toma o remédio e deseja hibernar pelas próximas três décadas, embora saiba que acordará na manhã seguinte e duvidará por aquele instante que lhe tirará o sono, que é sábado e você, finalmente, não tem nenhum compromisso fora de sua cama.

Quando não serve mais

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Entrou na loja para ajudar a escolher um presente. Som alto e roupas coloridas no tom teenager contemporâneo. Oferecem-lhe que escolha um presente para si. Seleciona coisas coloridas e segue ao provador. Não mais do que para provar a dor de que cresceu, que aquelas roupas não combinam mais com ela.

Segue para provar a dor de que a menina não existe mais nela. Que suas curvas  são de mulher, que o tamanho da roupa não serve, que o estilo não serve também. Quem a acompanha concorda que as coisas não lhe servem mais.

Escolhe uma blusa básica, de cor unica. Unica coisa da loja adolescente que lhe serve sem parecer estranho.

As roupas já não lhe servem mais, suas dores são outras, sua vida é outra. Volta para casa pensando nas palavras que usava e já não mais lhe servem. Nos escritos que gritam por mudanças. Nos escritos nos quais não mais se reconhece.

Encontrará novas roupas para vestir as palavras e dizer o que sente?

Eis a razão desse blog.

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